vezenquando

Monday, November 07, 2011

Do quase

Eu só queria te dizer que é assim mesmo. Quando os sentimentos andam meio empoeirados, meio esquecidos, eles acabam desse jeito. Todo atropelo. Tudo é muito, pouco é quase. Não dá pra entender o que começa e onde vai parar. Não é que espera alguma coisa... é só muito confusa essa coisa de viver. Então peço um pouco de paciência com as palavras - as minhas frases, as suas vírgulas - e um pouco de caridade. Que, né... também preciso de um pouco de calma e conforto. E em algum momento provavelmente será possível, assim que passar essa desordem barulho incerteza dos momentos depois. Que eu não entendo e nem quero. É bom assim, todo errado, todo novidade, todo interrogações e noites olhando estrelas procurando calma. É só assim que estou vivo.

Friday, October 07, 2011

Norman 3

Os quadros, os livros, as almofadas do sofá. Os cartões postais que espalhei pelas paredes, o jeito que arrumei os vidros de temperos. Uma casa inteira pensada pra você. Como se a sua visita estivesse prevista, mudei a cama de lugar, coloquei flores nos vasos, pendurei as cortinas. Mudei a cor das portas do armário. Arrumei sobre a mesa várias referências de nós dois. Pensei em quais livros deveriam estar em qual altura da estante. Que discos espalhar sobre o som que nunca, nunca funciona. O que você iria pensar da cor da geladeira, dos ímãs na porta. Da manhã cor de rosa, filtrada pelo tecido fino sobre a janela...

No começo era uma esperança, depois virou hábito. De tanto fazer pra você, acabei achando que era pra mim. Não sei mais se vejo filmes pensando em mim ou em você. Se ouço bandas novas para mim ou para você. Uma ausência tão presente em tudo que faço. Nos sapatos que compro, nas roupas que experimento. Imagino "E se... e se a gente se esbarra na rua?" "E se ele me vê com esse batom vermelho?" "E se ele encontrar essa planta ao lado da porta?" "E se ele não gostar de saia comprida?". Escolho cores, vestidos, as sandálias. O cinto colorido. O sabor do chá. O tipo de moldura. As pequenas delicadezas que aprendi sozinha e que ofereço assim, para você - para ninguém.

Leio livros e quero te contar: olha só essa história, que bonita se virar imagem. Penso no que você pensaria se estivesse lendo o que escrevo. E penso com tanta naturalidade que até esqueço que era para você. Parte do meu corpo, das minhas ideias. Sua postura de não sei virou a minha. Seu jeito de piscar e olhar pro lado tornou-se o meu. As viagens que faço e penso em você, como se pudesse te ver na próxima esquina. É claro que estivemos lá no mesmo ano e não nos vimos, do mesmo jeito que nossos caminhos se cruzam desde antes de a gente se conhecer até para sempre. Nos encontramos nas eternas coincidências, como a marca do cigarro, o isqueiro, as ironias cúmplices que só existem entre quem se conhece há muito tempo. São atos assim, tão simples, tão dentro de mim. Tão espontâneos que nem lembro de te dizer que foi assim que dediquei esses anos todos pra você. Como a gente não fala, esqueci de contar que esse foi o meu jeito de dizer que te amo. E esqueci também que, não importa o que eu faça, você chega e sai correndo, sumindo, desaparecendo em vertigem. Sem ler nada, sem ver as cores, esbarrando em copos. Vai em silêncio, sem prestar atenção ao mundo que pintei para você. Vento leve e morno que passa sem dizer adeus.

Sunday, October 02, 2011

Nos domínios da poesia

Às vezes, é um feixe de luz dourado coado pelas folhas das árvores. Uma flor miúda entre as rachaduras da calçada. O risco das letras que, unidas, se transformam em melodia. Detalhes que fazem o tempo parar, ficar suspenso em um suspiro... e então desabrochar em deslumbramento. Antes de aprender a ler, pedi aos meus pais que me ensinassem a escrever. Achava as palavras uma coisa mágica: quando se juntavam em fios sonoros, eram capazes de provocar essas maravilhas inexplicáveis que eu via, ouvia e sentia. Anos depois, descobri que esse arrepio se chamava poesia. No alto da página de um livro da escola, uma moça de cabelo muito escuro chamada Cecília Meireles me disse que cantava porque o instante existia e a vida estava completa. Ela não era nem alegre nem triste: era poeta. Foi como se eu tivesse aberto uma sala proibida. Com os olhos arregalados e o coração aos pulos, espiei estrofes, rimas, sonetos, canções – e os ritmos que percorria abriam espaços claros de emoção no meio dos meus dias. Em cadernos, eu copiava as sentenças mais bonitas e ensaiava as minhas. Guardava as páginas como se fossem pequenas pérolas, que jogavam brilho na rotina. Quando pude, comprei meu primeiro livro, uma antologia de capa branca e fina do Drummond. Foi quando entendi que poesia é transformar o comum em belo. Enxergar o mundo pelo prisma do singelo, do incrível. Mais do que em metáforas, o poético se esconde nos pequenos gestos. Congela em palavras a beleza que, de repente, decide se revelar. E constrói frases com ou sem rima, que tornam sentimento uma flor, uma linha de luz ou o risco das letras – que a qualquer um pode surpreender.

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Saturday, July 16, 2011

Trilhas Sonoras

Era mais ou menos assim que ela achava que tudo iria ser. Distraída, acompanhando algum refrão que só ela conhece. Cantaria Roxanne junto com o rádio do carro dele e ficaria com muita vergonha depois. Mas ele estaria sorrindo, tudo bem. E, com esse mesmo sorriso cúmplice, entenderia quando ela acordasse cantando Lovecats, dizendo que sonhou com o Bob Dylan. E seria sábado e eles tomariam café da manhã depois do meio-dia, em alguma padaria com mesas na calçada, sol e havaianas. E ela elevaria a voz, meio transtornada, ao dizer que as pessoas não sabem mais de onde vêm os versos last night I dreamt that somebody loved me, no hope, no harm... Porque ele seria a única pessoa para quem ela poderia desabafar coisas desse tipo sem parecer pretensiosa. E eles fariam viagens para Londres e tirariam muitas fotos na ponte que fica ali na waterloo station cantando waterloo sunset's fiiiiine... e, em Paris, ela faria shebam! pow! blop! wizz! entre as pedras das margens do Sena, segurando as mãos dele. Em São Paulo, ele diria que quando desce a Augusta entende direitinho o que o Hefner quer dizer com we love the city because it lets us down...

Mas nada disso aconteceu. Ela acabou com vários cds com o nome "músicas para esquecer". Tem Sinatra, os LA's, o Squirrel Nut Zippers, a Belle, o Sebastian e os Bangles que um dia ela cantou muito alto em uma esquina com a certeza que seriam eternos. Não foram. Nem esses nem outros. De repente, as pessoas param de se apaixonar. E ela parou de gravar fitas, cds, setlists. As músicas, todas, empoeiradas. Sem ter para quem mostrar o casaco Foxy Lady que ela comprou e receber de volta um olhar de compreensão. Nem poder dizer que tem uns dias em que está muito Jenny and the Ess-Dog e ouvir a resposta let me out of here, you got to let me out of here! Até hoje, e lá se vão anos de vazio, ela esqueceu o que são músicas divididas. Os cds e uma pilha de discos ficaram só para a lembrança. O único tempo em que o mundo vai devagar e as pessoas ainda se encantam. Às vezes, ela lembra que o amor - e as músicas - deveriam ser compartilhados. Então troca a faixa e coloca algo bem alto, cantado por alguém jovem, que nunca sentiu nada. It's so cold in Alaska...